Quem já acompanhou uma sessão de raspagem periodontal ou um retratamento endodôntico sabe que a escolha do instrumento adequado pode influenciar o resultado clínico. Entre os equipamentos que evoluíram nas últimas décadas está o ultrassom odontológico, e a tecnologia piezoelétrica teve participação importante nesse avanço.
Ainda na graduação, é comum ouvir os termos “piezoelétrico” e “magnetoestritivo” sem entender exatamente a diferença entre eles, ou porque um deles se tornou padrão-ouro em tantos protocolos clínicos.
Neste guia completo, você vai entender como funciona o ultrassom piezoelétrico, por que ele oferece mais precisão e conforto, e o que isso significa para a sua prática, seja no estágio, na clínica-escola ou nos primeiros anos de profissão.
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O Que É o Ultrassom Piezoelétrico e Por Que Ele Importa
Nos equipamentos odontológicos piezoelétricos, um sinal elétrico alternado, em frequência ultrassônica, é aplicado a um transdutor formado por elementos de cerâmica piezoelétrica. Pelo efeito piezoelétrico, esses elementos sofrem deformações dimensionais microscópicas e alternadas.
Operando próximo à frequência de ressonância do conjunto, normalmente entre 25 kHz e 50 kHz, essas oscilações são transmitidas e amplificadas mecanicamente até a ponta do instrumento, produzindo um movimento rápido e controlado.
O movimento produzido na extremidade ativa não depende apenas do transdutor piezoelétrico: ele resulta do casamento dinâmico entre o transdutor, o eixo da caneta e as propriedades mecânicas da ponta.
A geometria, o comprimento, a espessura, a massa, a rigidez e o material de cada ponta são projetados para que a parte ativa se comporte de maneira específica para a finalidade a que ela se destina.
Cada ponta é projetada para vibrar de forma controlada dentro de determinados modos de ressonância. Dependendo da geometria da ponta, da frequência de excitação e do nível de potência aplicado, que atua principalmente sobre a amplitude da oscilação, a trajetória da extremidade ativa pode ser predominantemente linear, elíptica, circular ou apresentar padrões mais complexos.
Esse casamento entre frequência, potência e geometria permite direcionar e concentrar a energia mecânica de formas diferentes, tornando cada ponta mais adequada para determinados procedimentos, regiões anatômicas ou condições clínicas.
Por isso existem pontas específicas para profilaxia, periodontia, endodontia, manutenção de implantes ou cirurgia óssea, cada uma com movimento, amplitude e forma de acesso adequados à sua aplicação.
Essa vibração é aplicada em procedimentos como remoção de cálculo dental, preparo de canais radiculares, remoção de núcleos metálicos e retratamentos endodônticos, nem sempre com irrigação constante: na endodontia, é comum utilizar a função seca (dry mode). Quando ativa, a irrigação dissipa o calor gerado e remove os debris (detritos ou limalhas) da área de trabalho.
Evolução Clínica
Antes da tecnologia piezoelétrica se popularizar, o equipamento de referência era o ultrassom magnetoestritivo, que usa placas metálicas justapostas para gerar vibração a partir de um campo magnético. O movimento produzido é elíptico, gera mais calor e, historicamente, exige mais cuidado com a irrigação e a adaptação da ponta ativa.
Com a chegada dos sistemas piezoelétricos, o movimento passou a ser mais previsível e controlável, com menor produção de calor, o que ampliou o uso do ultrassom para procedimentos que exigem mais delicadeza, como a instrumentação endodôntica e a raspagem subgengival em áreas de recessão.
Indicações Clínicas: Onde o Ultrassom Piezoelétrico Odontológico é Padrão-Ouro
A tecnologia piezoelétrica se tornou referência em situações que exigem precisão e controle térmico, entre elas:
Raspagem e alisamento radicular em terapia periodontal, incluindo áreas de furca e recessão, onde a combinação correta de ponta e modo de operação favorece maior controle durante a instrumentação.
Remoção de biofilme ao redor de implantes, com pontas compatíveis com a superfície de titânio. A seleção inadequada do instrumento ou dos parâmetros de uso pode provocar alterações na superfície do implante.
Instrumentação complementar em endodontia, como ativação de irrigantes, remoção de núcleos metálicos fraturados e localização de canais calcificados.
Preparos cavitários conservadores, quando associado a pontas diamantadas de baixa abrasividade, preservando estrutura dental sadia.
Para quem ainda está na graduação, entender essas indicações é mais útil do que decorar características técnicas isoladas: é o raciocínio clínico, “qual situação pede qual tecnologia”, que costuma ser cobrado em provas práticas e, mais adiante, no dia a dia do consultório.
Passo a Passo de Utilização
Na prática clínica, o fluxo de trabalho costuma seguir esta sequência:
Seleção do modo clínico adequado (geral, periodontal ou endodôntico), de acordo com o procedimento.
Ajuste da potência de acordo com o modo clínico selecionado, o tipo de inserto utilizado e a sensibilidade do procedimento.
Configuração da irrigação (ou seleção da função seca, quando indicada, como em alguns procedimentos endodônticos), garantindo o controle térmico adequado da ponta ativa.
Aplicação com movimentos leves e contínuos, sem pressão excessiva sobre a estrutura dental.
A cirurgiã-dentista Priscila Uehara descreve, em conteúdo publicado nas redes sociais (ref. 3), faixas de potência utilizadas para cada modo clínico dos equipamentos Advance 6 e 7, da Microdont:
no modo Geral (G), indicado para raspagem supragengival e remoção de cálculo, de 70% a 100%;
no modo Pério (P), voltado à raspagem subgengival e a áreas mais sensíveis, de 50% a 80%;
modo Endo (E), usado com insertos finos em procedimentos endodônticos, de 30% a 50%.
Esses valores são uma referência de uso divulgada pela profissional e devem sempre ser validados conforme o protocolo clínico e o julgamento do cirurgião-dentista responsável.
Fonte: Vídeo produzido por Priscila Uehara através do Instagram
Erros Comuns e Como Evitá-los
Um erro frequente entre profissionais em treinamento é aumentar excessivamente a potência para compensar uma técnica inadequada. Vale ressaltar também que tão importante quanto escolher a ponta correta (marca, modelo e geometria compatíveis e desenhados para o modelo de ultrassom utilizado) são a potência e o modo corretos para o uso dessa ponta.
Diferentes modos de operação (Geral, Pério ou Endo) geram sinais elétricos distintos para excitar os elementos piezoelétricos, o que produz movimentos mecânicos diferentes conforme a geometria de cada ponta.
O correto é ajustar a intensidade conforme o procedimento e permitir que a vibração da ponta realize o trabalho, com movimentos leves e contínuos, sem exercer pressão excessiva contra o dente.
Outro erro comum é negligenciar a irrigação (quando indicada), o que aumenta o risco de dano térmico ao tecido pulpar e periodontal, especialmente em sessões mais longas.
Piezoelétrico x Magnetoestritivo: Comparação Técnica
Aspecto
Piezoelétrico
Magnetoestritivo
Mecanismo
Cristais de quartzo/turmalina sob campo elétrico
Placas metálicas sob campo magnético
Tipo de movimento
Varia conforme a ponta: pode ser linear, elíptico ou circular
Predominantemente elíptico
Produção de calor
Menor
Maior
Ruído
Mais silencioso
Mais perceptível
Controle de energia
Mais preciso
Menos preciso
Indicações típicas
Indicado para procedimentos que exigem maior precisão e menor geração de calor, como periodontia, endodontia e manutenção de implantes
Uso geral em raspagem e remoção de cálculo, inclusive em casos com maior volume de depósito
O Que Mostra a Literatura Sobre Piezoelétrico e Magnetoestritivo
o escalador piezoelétrico causou menos desconforto ao paciente (dor, ruído e vibração),
enquanto o magnetoestritivo foi mais eficaz na remoção de cálculo e produziu uma superfície radicular mais lisa, com menor perda de estrutura dental.
Ou seja, a escolha entre as duas tecnologias depende do que se prioriza em cada caso: conforto do paciente ou eficiência de remoção.
Equipamentos mais recentes, como o Advance 7 da Microdont (ref. 2), reúnem recursos como modos clínicos dedicados (geral, periodontal e endodôntico), até 10 níveis de ajuste de potência, frequência de até 33 kHz e bomba peristáltica interna, que dispensa a necessidade de um ponto de água pressurizada fixo, uma vantagem para clínicas-escola e ambientes com múltiplas salas de atendimento.
A caneta desmontável, com LED na ponta e autoclavável a 135°C, também facilita o fluxo de biossegurança entre atendimentos.
Vale reforçar que a compatibilidade entre a ponta e o equipamento, preferencialmente da mesma marca e modelo, ajuda a preservar o comportamento vibracional projetado pelo fabricante para cada aplicação.
Para quem está se formando, vale acompanhar essa evolução de perto: equipamentos com múltiplos modos clínicos e ajuste fino de potência tendem a ser cada vez mais comuns nos consultórios e nas clínicas onde os primeiros anos de prática costumam acontecer.
Perguntas Frequentes Sobre Ultrassom Piezoelétrico
Ultrassom piezoelétrico dói mais que o magnetoestritivo?
Não, tende a ser o contrário. O piezoelétrico é mais eficiente na conversão de energia elétrica em movimento, o que reduz a geração de calor no processo. Como o aquecimento da ponta costuma estar associado a maior desconforto durante o procedimento, o piezoelétrico tende a ser percebido como menos dolorido pelo paciente.
Qual a principal diferença entre ultrassom piezoelétrico e magnetoestritivo?
A principal diferença está na eficiência da conversão de energia. Nos equipamentos magnetoestritivos, a corrente elétrica altera a forma de lâminas metálicas empilhadas que compõem o transdutor, e boa parte dessa energia se converte em calor antes de virar movimento mecânico, calor esse que é conduzido até a ponta. Já nas pastilhas piezoelétricas a relação é praticamente inversa: a maior parte da potência entregue é convertida diretamente em movimento, e apenas uma pequena parcela em calor.
O ultrassom piezoelétrico serve para endodontia?
Sim. É amplamente utilizado na ativação de irrigantes, remoção de núcleos metálicos e outras etapas do retratamento endodôntico, sempre com pontas, modo e potência específicas para esse fim. O uso de uma ponta de endodontia em modo ou potência incorretos pode causar fratura do instrumento, por isso o ajuste correto é essencial.
Preciso de treinamento específico para usar um ultrassom piezoelétrico?
O manuseio básico é intuitivo, mas o ajuste correto de potência e modo clínico para cada procedimento deve ser realizado por cirurgião-dentista legalmente habilitado, sendo uma habilidade desenvolvida ao longo da prática clínica supervisionada.
Ultrassom piezoelétrico pode ser usado em pacientes com marca-passo?
Sim, com ressalvas. Diferente do ultrassom magnetoestritivo, cujo uso costuma ser desaconselhado nesses pacientes por gerar campo eletromagnético durante o funcionamento, o piezoelétrico não produz esse tipo de interferência em dispositivos cardíacos implantáveis, de acordo com estudos sobre o tema (ref. 4). Mesmo assim, a decisão final deve considerar o quadro clínico individual e, quando necessário, o contato com o cardiologista responsável pelo paciente.
Conclusão: o Que Você Precisa Lembrar Sobre o Ultrassom Piezoelétrico
A escolha entre piezoelétrico e magnetoestritivo não é apenas uma questão de preferência: envolve entender como cada tecnologia se comporta clinicamente e o que se prioriza em cada procedimento, seja o conforto do paciente, seja a eficiência de remoção. Essas características fazem diferença em procedimentos periodontais, endodônticos e de manutenção de implantes.
Se você está no início da formação clínica, vale acompanhar de perto como essa tecnologia é aplicada na prática, e equipamentos modernos como o Advance 7 mostram como os fabricantes têm reunido esses recursos em um único aparelho.
Ref. 2: Site oficial da Microdont: Linha Advance (Ultrassom).
Ref. 3: Conteúdo da cirurgiã-dentista Priscila Uehara (@drapriscilauehara) sobre uso do ultrassom odontológico.
Ref. 4: DADALTI, Manoela Teixeira de Sant’Anna. Interferência eletromagnética dos equipamentos odontológicos nos dispositivos cardíacos eletrônicos implantáveis. Dissertação de mestrado, Rio de Janeiro, 2015.
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